segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Quase Anônimos

No dia 25 de janeiro estreou a peça Quase Anônimos, texto de Manoel Candeias e com direção de Paula Micchi. No elenco apenas três atores : Adriana Duval, que também é produtora do espetáculo, Alfredo Tambeiro e Renata Boechat.

Quase anônimos foi baseada num famoso texto de Sartre, Entre Quatro Paredes, no qual deste conhecemos a ilustre frase “O inferno são os outros”.

Com duração de apenas 1 hora, esses sessenta minutos pareceram horas.

Os atores não olharam para o público.

E alguns destes encontravam-se impacientes, com postura curvada ou com olhares perdidos no teto.

A história era simples. Duas mulheres dividiam um apartamento. A dona era louca para ser famosa e ter prestigio. A outra era uma estagiaria de publicidade, obcecada por limpeza e que adora falar gritando. A dona, que na verdade não era dona, vivia de favor neste apartamento que na verdade o real dono era o seu ex, um ex-participante de reality show que buscava desesperadamente pela fama.

Num certo dia, o prédio no qual as duas meninas vivem, ah que por sinal não tem nomes...ambas se chamam de Ei, é fechado por pessoas que foram maltratadas pela aspirante a celebridade.
Com medo de sair do apartamento as duas ficam trancadas e, de repente, sabe-se lá como o Cara, nome dado ao dono do apê, chega querendo reaver o imóvel.

E ai a história fica estagnada. O cara querendo expulsar as Eis, a Ei estagiaria quer ficar porque ela faz a parte dela e, a Ei celebridade quer ficar, já que não quer voltar para a casa dos pais, e tenta assim enrolar o Cara para não se mudar.

A grande sacada foi apenas no final com uma estratégia da estagiaria para se livrar do Cara e da Ei celebridade.

De certo, Entre Quatro Paredes foi uma leve referência em Quase Anônimos porque não houve qualquer complexidade das personagens. Eram apenas futilidades e, os reais problemas de caráter foram escondidos juntos com os tufos de cabelos no puff azul localizado as laterais do palco.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Calabar Breviário


No décimo andar da unidade provisória do Sesc Paulista está em cartaz, até o dia dois de março, a peça Calabar Breviário(adaptação do texto de Ruy Guerra e Chico Buarque), dirigida por Heron Coelho e com os atores: Jóse Eduardo Rennó, Luciana Paez, Ivan Kraut, Andréa Lopes, Clayton Mariano, Jeanne de Castro, Tucci Fattore, Carlos Mattar e Adriana Moreira.

Primeiramente, um flash histórico quanto quem foi Calabar, porque acredito que este não seja um personagem conhecido por todos, fazendo falta esta explicação na peça dirigida por Heron.

*“A figura de Calabar insere-se na história pátria colonial durante a época da invasão dos holandeses no Nordeste (1630-1654). Morador de Porto Calvo, Alagoas, passou para o lado holandês em 1632. Conseqüentemente, é desprezado pela maioria das pessoas como traidor; outros, porém, acreditam que Calabar amava a sua terra natal e fez uma escolha sábia.

Antes mesmo de descer do elevador já se ouve uma batucada, o som ecoando por todos os lados. O clima animado nordestino engloba a todos. As portas se abrem e, à direita o elenco está cantando e um quadro é montado.Uma mistura de carnavalescos, sertanejos e a interpretação do quadro A Negra, da Tarsila do Amaral chamou muita atenção do público.

O espaço cênico é diferenciado por ser um estádio de arena. Apenas um círculo pequeno como palco, onde neste se localizava um pêndulo e um tapete com a foto de uma índia com as pernas abertas na cor cobre.
Para aumentar o clima íntimo, roupas e alguns acessórios estavam localizados em volta do palco.

Não apenas os objetos, havia também a presença da Mãe Terra. Uma atriz belamente colocada à direita da banda que nos maravilhou com sua voz e sensibilidade durante a apresentação.

A peça inicia-se como uma legião dos atores cantarolando, enquanto uma atriz contava sobre a historia de Olinda, misturada com declamações, como por exemplo de trechos do hino da independência brasileira.

Foco da peça? História da América Holandesa; a briga entre Portugal e Holanda pelo domínio Pernambuco e a instalação de novas tecnologias holandesas na cidade de Olinda por meio dos holandeses. Porém Calabar, retratado como um revolucionário e idealista na representação, é morto por traição aos portugueses ao se unir aos holandeses.

“A idéia holandesa não endossa a traição, mas também não condena”.

A presença dos instrumentistas criou um ótimo clima para a peça, porém, talvez pela minha localização próxima a banda, muitas falas foram abafadas, perdendo-se o sentido do ato.

O primeiro solo de apresentação foi do Governador português. Apesar de possuir uma ótima dicção, o sotaque português era muitas vezes esquecido e falado apenas em algumas palavras.

O segundo solo foi da personagem Bárbara (adorava ficar agachada em cena, ficou nessa posição uns 80% do tempo.) companheira de Calabar e que, sofre a peça inteira por causa de sua morte e lutando pelo sonho de seu amando e, que em duas horas de peça, não consegui entender qual exatamente era esse sonho.

De repente, meu foco vai para uma pessoa fora de cena. Uma atriz sentada com as pernas cruzadas e com aspecto de cansaço; com o olhar ao longe. A personagem dela era a Ana Amsterdã. Entrou em cena e não marcou. Estava em cena, mas sua feição, seu calor estavam apenas dentro dela. Inclusive ela jogou baralho durante a representação e, achava que tinha algo a ver com o ato; não havia qualquer ligação.
Nos cantos sua voz era fraca e de seus lábios as palavras saiam fechadas e tristes; sem vigor.
Não consegui tirar minha atenção dela, mesmo perdendo alguns momentos dos atos.

Estava inconformada.

O próximo a se apresentar é o Frei Manuel um dos integrantes da igreja mais descolados que já vi. Caras e bocas e às vezes apresentava um olhar ausente. A pose do padre convencional foi deixada de lado e um padre / pastor foi apresentado.

Um dos pontos interessantes de Calabar foi a participação dos atores que estavam fora de cena tanto na sonoplastia como com a utilização de objetos, exemplo: isqueiros.

Após uma hora de apresentação a peça estava na crise: Bárbara reclamando pela morte de Calabar, detalhe que a historia se passa em 1637 e a pose da atriz era totalmente atual. Algumas gírias, um modelo coloquial a lá século XXI. Tudo bem que no teatro muitas coisas são válidas mas é importante se criar uma identidade com a época vivida ; segundo momento estava a parte histórica e como a batalha entre Portugal e Holanda se desenrolou.

Dentre a historia muitos solos musicais foram apresentados. Como um feito por Bárbara com a música Tatuagem, de Chico Buarque.

Duas horas de peça. Não há qualquer evolução. Bárbara continua a reclamar da injustiça contra Calabar, que este era o homem da sua vida, mas que pelo menos neste segundo momento ela tinha um novo amor, Sebastião de Solto. O pobre traidor também ouviu por esta uma hora o quanto Calabar era isso ou aquilo.

É assim ficamos.

O público? Cansado. Remexendo-se nas cadeiras e tosses por todo lado. Inclusive uma senhora na primeira fileira se entregou a um rápido cochilo.

Dois Pontos Fortes. Primeiro:A Cobra de Vidro (analogia a um idéia de um lagarto ápodo que, por mais que seja cortado, sempre se reconstitui e assim que os ideais persistem no atemporal.). Talvez essa seja a resposta para o que Calabar acreditava e sua importância histórica.

Segundo. O fim da peça no qual acontece um “debate meio ping pong” entre os atores com a questão: como conseguimos dormir com a consciência tranqüila pelos pecados que vivemos.


Aí, nesse pequeno ato de aproximadamente cinco minutos a peça de refez. A sinceridade, uma força tomou conta e o teatro se fez o te-ato.


E tudo termina em festa ao som de Não existe pecado do lado debaixo do Equador, de Chico Buarque.









*Frans Leonard Schalkwijk* - O autor é ministro da Igreja Reformada Holandesa, com mestrado no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, Estados Unidos, e doutorado em história na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
Link: http://www.longoalcance.com.br/brecife/calabar/index.html

domingo, 6 de janeiro de 2008

Humor em 5 Atos



Os alunos de teatro do 4º semestre noturno da escola Célia Helena apresentaram nos dias 17,18 e 19 de dezembro a peça Humor em Cinco Atos dirigida pelo Professor Ednaldo Freire e pelo assistente Mairun Sevá.

A peça, obviamente dividida nos cinco atos, apresentou as obras (em ordem de apresentação): Confusão na prefeitura de Júlio R. Ribeiro, O médico à força de Molière, O Urso de A. Tchekhov, O Jubileu de A. Tchekhov e Picnic no front de Fernando Arrabal.

O espaço do teatro era bem privilegiado e que fugia aos padrões do teatro italiano.
Atores ao centro e abaixo, localizados no meio do público. Um típico teatro de estádio.
Não acho que cabe escrever ato por ato porque faria deste texto uma monografia.

Os atores são ótimos.

Tem boa movimentação no palco e olham diretamente para o público.
Apenas em alguns momentos não foi possível ouvir o que o ator intérprete da personagem
Sganarelo falava por meio entre seu sotaque caipira, algumas palavras foram perdidas e faladas em tom baixo.

Velhos carimbos gestuais também foram vistos na cena de O Urso, como aquela parada das duas mãos em frente as lábios a la Renata Sorrah, entre outros , comos as mãos levadas a testa de caráter dramático, olhar esbugalhado de ódio e, estes não se apresentavam nos momentos caricatos que cairiam muito bem, mas encontravam-se em ocasiões que o sentimento interior poderia ter sido substituído pela sutileza de um olhar.

De todos os cinco atos, o que realmente tocou e foi direto e com um objetivo concreto foi Picnic no front.
Até mesmo com um ataque do alto de um perfume em cena, os atores lidaram muito bem com o ocorrido, deixando ainda mais cômico.

Não há dúvidas da integridade e paixão pelos interpretes de Humor em 5 atos, mas acredito que algumas das obras poderiam ter sido mais sucintas e até mesmo com o efeito da moral no fim da história, como por exemplo Confusão na Prefeitura.

Ver algo e ficar no achando e esperando o resto passa uma sensação de inacabado, esperava-se que os atores iriam voltar em cena, porém apenas as luzes se apagavam e se entendia que o ato tinha por fim terminado.

Espero ver muitas outras peças deste grupo. Há atores que prometem.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Marat / Sade


A peça apresentada pelos membros da Oficina do Satyros, Perseguição e Assassinato de Jean Paul Marat representado pelo Grupo Teatral do Hospício de Charenton sob a direção do Senhor de Sade, mais conhecido apenas por Marat / Sade, não poderia ter sido mais oportuna. A grande quantidade de loucos em cena a todo momento favoreceu e muito os atores iniciantes, já que, mesmo que não cumprissem fielmente seu papel, o público jamais poderia notar.
O início é perturbador. O público desde as escadas do Satyros II em busca de um lugar para se acomodar, mas esse local parece nunca chegar, seja pela confusão causada pelos murmúrios dos louquinhos que repetem coisas, aparentemente sem sentido, ou pelas voltas dadas por todo o espaço antes de alcançar a arquibancada.
A história é muito boa, o enredo foi bem trabalhado, mas infelizmente, provavelmente por se tratar da estréia, não só do texto, mas dos atores, num todo a interpretação do texto de Sade deixou a desejar. Algumas atuações foram caricatas demais, outras de menos, e isso prejudicou o entendimento do texto e, em alguns momentos, tornou a peça entediante.
Alguns oficineiros se destacaram com uma apresentação carismática e divertida, enquanto outros pareciam nem estar lá mentalmente. No entanto, críticas individuais não cabem aqui, já que nem todos podem ser identificados e não seria justo apontar um ou outro como bode expiatório.
O que fica é um parabéns a todos os atores pela coragem que tiveram ao se despirem de seus medos e pré-conceitos e encenarem um texto tão difícil perante o público, além de um singelo conselho para o futuro. Ensaiar com afinco, se entregar ao personagem e evitar gestos e posturas caricatas em textos que, embora superficialmente divertidos, tratem da tragédia que é a sociedade e a alma humana.
Crítica escrita por Juliana Cruz