No décimo andar da unidade provisória do Sesc Paulista está em cartaz, até o dia dois de março, a peça Calabar Breviário(adaptação do texto de Ruy Guerra e Chico Buarque), dirigida por Heron Coelho e com os atores: Jóse Eduardo Rennó, Luciana Paez, Ivan Kraut, Andréa Lopes, Clayton Mariano, Jeanne de Castro, Tucci Fattore, Carlos Mattar e Adriana Moreira.
Primeiramente, um flash histórico quanto quem foi Calabar, porque acredito que este não seja um personagem conhecido por todos, fazendo falta esta explicação na peça dirigida por Heron.
*“A figura de Calabar insere-se na história pátria colonial durante a época da invasão dos holandeses no Nordeste (1630-1654). Morador de Porto Calvo, Alagoas, passou para o lado holandês em 1632. Conseqüentemente, é desprezado pela maioria das pessoas como traidor; outros, porém, acreditam que Calabar amava a sua terra natal e fez uma escolha sábia.
Antes mesmo de descer do elevador já se ouve uma batucada, o som ecoando por todos os lados. O clima animado nordestino engloba a todos. As portas se abrem e, à direita o elenco está cantando e um quadro é montado.Uma mistura de carnavalescos, sertanejos e a interpretação do quadro A Negra, da Tarsila do Amaral chamou muita atenção do público.
O espaço cênico é diferenciado por ser um estádio de arena. Apenas um círculo pequeno como palco, onde neste se localizava um pêndulo e um tapete com a foto de uma índia com as pernas abertas na cor cobre.
Para aumentar o clima íntimo, roupas e alguns acessórios estavam localizados em volta do palco.
Não apenas os objetos, havia também a presença da Mãe Terra. Uma atriz belamente colocada à direita da banda que nos maravilhou com sua voz e sensibilidade durante a apresentação.
A peça inicia-se como uma legião dos atores cantarolando, enquanto uma atriz contava sobre a historia de Olinda, misturada com declamações, como por exemplo de trechos do hino da independência brasileira.
Foco da peça? História da América Holandesa; a briga entre Portugal e Holanda pelo domínio Pernambuco e a instalação de novas tecnologias holandesas na cidade de Olinda por meio dos holandeses. Porém Calabar, retratado como um revolucionário e idealista na representação, é morto por traição aos portugueses ao se unir aos holandeses.
“A idéia holandesa não endossa a traição, mas também não condena”.
A presença dos instrumentistas criou um ótimo clima para a peça, porém, talvez pela minha localização próxima a banda, muitas falas foram abafadas, perdendo-se o sentido do ato.
O primeiro solo de apresentação foi do Governador português. Apesar de possuir uma ótima dicção, o sotaque português era muitas vezes esquecido e falado apenas em algumas palavras.
O segundo solo foi da personagem Bárbara (adorava ficar agachada em cena, ficou nessa posição uns 80% do tempo.) companheira de Calabar e que, sofre a peça inteira por causa de sua morte e lutando pelo sonho de seu amando e, que em duas horas de peça, não consegui entender qual exatamente era esse sonho.
De repente, meu foco vai para uma pessoa fora de cena. Uma atriz sentada com as pernas cruzadas e com aspecto de cansaço; com o olhar ao longe. A personagem dela era a Ana Amsterdã. Entrou em cena e não marcou. Estava em cena, mas sua feição, seu calor estavam apenas dentro dela. Inclusive ela jogou baralho durante a representação e, achava que tinha algo a ver com o ato; não havia qualquer ligação.
Nos cantos sua voz era fraca e de seus lábios as palavras saiam fechadas e tristes; sem vigor.
Não consegui tirar minha atenção dela, mesmo perdendo alguns momentos dos atos.
Estava inconformada.
O próximo a se apresentar é o Frei Manuel um dos integrantes da igreja mais descolados que já vi. Caras e bocas e às vezes apresentava um olhar ausente. A pose do padre convencional foi deixada de lado e um padre / pastor foi apresentado.
Um dos pontos interessantes de Calabar foi a participação dos atores que estavam fora de cena tanto na sonoplastia como com a utilização de objetos, exemplo: isqueiros.
Após uma hora de apresentação a peça estava na crise: Bárbara reclamando pela morte de Calabar, detalhe que a historia se passa em 1637 e a pose da atriz era totalmente atual. Algumas gírias, um modelo coloquial a lá século XXI. Tudo bem que no teatro muitas coisas são válidas mas é importante se criar uma identidade com a época vivida ; segundo momento estava a parte histórica e como a batalha entre Portugal e Holanda se desenrolou.
Dentre a historia muitos solos musicais foram apresentados. Como um feito por Bárbara com a música Tatuagem, de Chico Buarque.
Duas horas de peça. Não há qualquer evolução. Bárbara continua a reclamar da injustiça contra Calabar, que este era o homem da sua vida, mas que pelo menos neste segundo momento ela tinha um novo amor, Sebastião de Solto. O pobre traidor também ouviu por esta uma hora o quanto Calabar era isso ou aquilo.
É assim ficamos.
O público? Cansado. Remexendo-se nas cadeiras e tosses por todo lado. Inclusive uma senhora na primeira fileira se entregou a um rápido cochilo.
Dois Pontos Fortes. Primeiro:A Cobra de Vidro (analogia a um idéia de um lagarto ápodo que, por mais que seja cortado, sempre se reconstitui e assim que os ideais persistem no atemporal.). Talvez essa seja a resposta para o que Calabar acreditava e sua importância histórica.
Segundo. O fim da peça no qual acontece um “debate meio ping pong” entre os atores com a questão: como conseguimos dormir com a consciência tranqüila pelos pecados que vivemos.
Aí, nesse pequeno ato de aproximadamente cinco minutos a peça de refez. A sinceridade, uma força tomou conta e o teatro se fez o te-ato.
E tudo termina em festa ao som de Não existe pecado do lado debaixo do Equador, de Chico Buarque.
*Frans Leonard Schalkwijk* - O autor é ministro da Igreja Reformada Holandesa, com mestrado no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, Estados Unidos, e doutorado em história na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
Link: http://www.longoalcance.com.br/brecife/calabar/index.html
Primeiramente, um flash histórico quanto quem foi Calabar, porque acredito que este não seja um personagem conhecido por todos, fazendo falta esta explicação na peça dirigida por Heron.
*“A figura de Calabar insere-se na história pátria colonial durante a época da invasão dos holandeses no Nordeste (1630-1654). Morador de Porto Calvo, Alagoas, passou para o lado holandês em 1632. Conseqüentemente, é desprezado pela maioria das pessoas como traidor; outros, porém, acreditam que Calabar amava a sua terra natal e fez uma escolha sábia.
Antes mesmo de descer do elevador já se ouve uma batucada, o som ecoando por todos os lados. O clima animado nordestino engloba a todos. As portas se abrem e, à direita o elenco está cantando e um quadro é montado.Uma mistura de carnavalescos, sertanejos e a interpretação do quadro A Negra, da Tarsila do Amaral chamou muita atenção do público.
O espaço cênico é diferenciado por ser um estádio de arena. Apenas um círculo pequeno como palco, onde neste se localizava um pêndulo e um tapete com a foto de uma índia com as pernas abertas na cor cobre.
Para aumentar o clima íntimo, roupas e alguns acessórios estavam localizados em volta do palco.
Não apenas os objetos, havia também a presença da Mãe Terra. Uma atriz belamente colocada à direita da banda que nos maravilhou com sua voz e sensibilidade durante a apresentação.
A peça inicia-se como uma legião dos atores cantarolando, enquanto uma atriz contava sobre a historia de Olinda, misturada com declamações, como por exemplo de trechos do hino da independência brasileira.
Foco da peça? História da América Holandesa; a briga entre Portugal e Holanda pelo domínio Pernambuco e a instalação de novas tecnologias holandesas na cidade de Olinda por meio dos holandeses. Porém Calabar, retratado como um revolucionário e idealista na representação, é morto por traição aos portugueses ao se unir aos holandeses.
“A idéia holandesa não endossa a traição, mas também não condena”.
A presença dos instrumentistas criou um ótimo clima para a peça, porém, talvez pela minha localização próxima a banda, muitas falas foram abafadas, perdendo-se o sentido do ato.
O primeiro solo de apresentação foi do Governador português. Apesar de possuir uma ótima dicção, o sotaque português era muitas vezes esquecido e falado apenas em algumas palavras.
O segundo solo foi da personagem Bárbara (adorava ficar agachada em cena, ficou nessa posição uns 80% do tempo.) companheira de Calabar e que, sofre a peça inteira por causa de sua morte e lutando pelo sonho de seu amando e, que em duas horas de peça, não consegui entender qual exatamente era esse sonho.
De repente, meu foco vai para uma pessoa fora de cena. Uma atriz sentada com as pernas cruzadas e com aspecto de cansaço; com o olhar ao longe. A personagem dela era a Ana Amsterdã. Entrou em cena e não marcou. Estava em cena, mas sua feição, seu calor estavam apenas dentro dela. Inclusive ela jogou baralho durante a representação e, achava que tinha algo a ver com o ato; não havia qualquer ligação.
Nos cantos sua voz era fraca e de seus lábios as palavras saiam fechadas e tristes; sem vigor.
Não consegui tirar minha atenção dela, mesmo perdendo alguns momentos dos atos.
Estava inconformada.
O próximo a se apresentar é o Frei Manuel um dos integrantes da igreja mais descolados que já vi. Caras e bocas e às vezes apresentava um olhar ausente. A pose do padre convencional foi deixada de lado e um padre / pastor foi apresentado.
Um dos pontos interessantes de Calabar foi a participação dos atores que estavam fora de cena tanto na sonoplastia como com a utilização de objetos, exemplo: isqueiros.
Após uma hora de apresentação a peça estava na crise: Bárbara reclamando pela morte de Calabar, detalhe que a historia se passa em 1637 e a pose da atriz era totalmente atual. Algumas gírias, um modelo coloquial a lá século XXI. Tudo bem que no teatro muitas coisas são válidas mas é importante se criar uma identidade com a época vivida ; segundo momento estava a parte histórica e como a batalha entre Portugal e Holanda se desenrolou.
Dentre a historia muitos solos musicais foram apresentados. Como um feito por Bárbara com a música Tatuagem, de Chico Buarque.
Duas horas de peça. Não há qualquer evolução. Bárbara continua a reclamar da injustiça contra Calabar, que este era o homem da sua vida, mas que pelo menos neste segundo momento ela tinha um novo amor, Sebastião de Solto. O pobre traidor também ouviu por esta uma hora o quanto Calabar era isso ou aquilo.
É assim ficamos.
O público? Cansado. Remexendo-se nas cadeiras e tosses por todo lado. Inclusive uma senhora na primeira fileira se entregou a um rápido cochilo.
Dois Pontos Fortes. Primeiro:A Cobra de Vidro (analogia a um idéia de um lagarto ápodo que, por mais que seja cortado, sempre se reconstitui e assim que os ideais persistem no atemporal.). Talvez essa seja a resposta para o que Calabar acreditava e sua importância histórica.
Segundo. O fim da peça no qual acontece um “debate meio ping pong” entre os atores com a questão: como conseguimos dormir com a consciência tranqüila pelos pecados que vivemos.
Aí, nesse pequeno ato de aproximadamente cinco minutos a peça de refez. A sinceridade, uma força tomou conta e o teatro se fez o te-ato.
E tudo termina em festa ao som de Não existe pecado do lado debaixo do Equador, de Chico Buarque.
*Frans Leonard Schalkwijk* - O autor é ministro da Igreja Reformada Holandesa, com mestrado no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, Estados Unidos, e doutorado em história na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
Link: http://www.longoalcance.com.br/brecife/calabar/index.html

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7 comentários:
voce se apega a detalhes heim!
isso é bom... e vc está com olhos bem afiados
como sabia que o baralho nao era parte da peça?
bjsmeliga
às vezes o autor quer botar tanta HISTÓRIA na peça que acaba confundindo a platéia. e que seria te-ato?
deixar atado?
nossa...longo como a peça....
rs
Sempre gosto de vir no Discutindo...A visão que você tem é interessante, o texto é crítico e análitico. Fora que você fala de peças que não estão necessariamente no grande circuito.
acho que de tanto falar que a peça estava meio cansativa, seu texto ficou um pouco cansativo.
mas eu adoro ver o que você escreve.
assim como eu, você se apega à detalhes.
muito bom!
Corrigindo:
1) Não é Lagarto de Vidro, e sim Cobra de Vidro. Que aliás, é uma canção da peça original. (Não sei se existe nesta montagem, pois ainda não vi)
2) Não existe pecado não é do Ney Matogrosso, meu deus. É do Chico Buarque!
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