sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Salmo 91



Adaptação do livro Carandiru do Dráuzio Varella, Salmo 91 é a mais recente peça em cartaz no Teatro Oficina, sinagoga mor durante 5 anos da apresentação de Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Dividida em 10 monólogos, a peça conta a historia de dez encarcerados do ex- maior presídio da América Latina, o Carandiru; relatando as batalha para sobreviver entre as regras impostas pelas mais fortes, os desejos e planos ao saírem da prisão, as angústias e o porque de terem ido para a cadeia.
O primeiro monologo é apresentado pelo ator Pascoal da Conceição representando Vavá, o sobrevivente do Massacre que se iniciou após o Campeonato Interno de Futebol em um dos Pavilhões do presídio.
A fala é afoita; tem a intenção de passar rapidez com que os fatos foram acontecendo. Com poucas pausas e respiração rápida e ofegante a tarefa é tão bem executada que as palavras mal ficam gravadas na sua cabeça. Foi a único monologo que não me recordo o que foi falado e que na própria platéia causa um desconforto e grande desatenção para o inicio de um espetáculo.
O ator Pedro Moutinho está nos papéis de Charuto e Valente. Suas falas são cheia de emoção e naturalismo, até demais. Dizem que ter expressão facial é bom para o teatro, representam mais do que mil palavras mas lembrem-se, expressão exagerada gera apenas careta distorcendo totalmente o seu rosto e cria um tique desnecessário e não passa qualquer singularidade para sua personagem. A não ser que esta seja a intenção.
Toda a leveza e risada fica guardada para a personagem de Ando Camargo, a doméstica homossexual Zizi. Ótima interpretação com variações de ritmos que prendem a platéia do começo ao fim de sua apresentação.
Não faltam também elogios para os outros dois atores Rodolfo Vaz e Rodrigo Fregnan. Personagens complexos e dramáticos mesmo que apresentados entre situações engraçadas no caso da personagem Zé da Casa Verde, interpretado pro Fregman e,pela dramaticidade e agonia dos internos como a história da travesti Veronique, personagem de Vaz.

Claro que, por estarem no antro sagrado do Zé Celso não podia faltar nudez; função executada APENAS por Pascoal. Já que queriam mostra a verdade de um massacre, acredito que os policias não poupariam todos os outros presos de permanecerem com a sua roupa e deixaram apenas o coitado do Vavá nu em meio do pátio. Geralmente a situação é inversa. Inspeção nos presos e todos ficam nus e, em algum momento este sobrevivente acharia uma vestimenta perdida em algum canto e sairia correndo da confusão.

Mas enfim, beleza cênica e ator mesmo é aquele que fica pelado na frente de sua platéia não????


A peça com direção de Gabriel Villela e adaptada por Dib Carneiro Neto está na sua última semana de exibição.
As apresentações são realizadas às sextas e sábados ás 21h30min e domingos às 19h00min.
O valor da entrada é R$ 20,00 e a duração da peça é de aproximadamente 1h40min

120 Dias de Sodoma


Romance de autoria do Marques de Sade teve sua reestréia no espaço 2 do Satyros no dia 11 de agosto, reafirmando sem sombra de dúvida seu sucesso e prestígio na readaptação do Grupo Satyros para este ícone na literatura mundial.
120 de Sodoma ou Les 120 Journées de Sodome ou Lécole du libertinage foi escrita entre os dias 22 de outubro e 25 de novembro de 1785, quando Sade tinha 45 anos e estava preso na Bastilha.
Poderia aqui adiantar o romance de Sade, mas acredito que deva relatar a visão que o Satyros fez dessa peça justamente pela contemporaneidade que esta apresentou ao longo de sua trajetória.
Os Quatro Libertinos, Duque de Blangis,seu irmão Bispo de Blangi, o Presidente de Curval e o Ministro Durcet decidem organizar um deboche, ou seja, uma orgia com a duração de 120 dias no Castelo de Silling, lugar localizado nas montanhas, totalmente isolado e, para satisfazer os seus prazeres foram convocados os mais belos jovens virgens da França.
Para fechar os participantes do deboche, 4 fodedores, acredito que dispense qualquer explicação, e 2 contadoras de histórias relatariam suas próprias experiências com libertinos.
A experiência dos jovens é dividida em quatro ciclos: ciclo das paixões simples, das paixões complexas, das paixões criminosas e das paixões assassinas.
Em cada ciclo, a tortura sexual dos jovens aumenta até que em seu ultimo episódio, ciclo das paixões assassinas, acabam mortos de maneira bruta, como escalpamento e mutilação de seus órgãos.
O Final? Surpreendente. O sorriso forçado dos jovens com seus corpos amontoados e, a platéia enganada aplaudindo enquanto o quadro estava exposto ao centro do tablado.
Não havendo como fugir da linha Satyros, a peça deixa fortes marcas não apenas na visão do seu público com imagens de sexo, como estupro e violência física mas, principalmente na complexidade e descrição perfeita do texto.
Muito além de uma lição de moral manjada,120 dias de Sodoma retrata toda a angustia e desespero que somos obrigados a conviver todos os dias.
Do controle e manipulação que nos é imposto pela nossa política e, descobrirmos que não passamos de meros fantoches, sorrindo e balançando a cabeça enquanto lentamente nossas partes são dilaceradas e largadas aos montes para os abutres ansiosos para terminar com o resto que os Grandes cuspiram e julgaram inapropriados para sua utilização futura.
Simplesmente Lixo.

Reflexos do que se foi



No Centro Cultural de São Paulo ficou em cartaz dos dias 13 de julho à 12 de agosto, a peça No Retrovisor de Marcelo Rubens Paiva,estrelada pelo ex- ator global Marcelo Serrado e, o atual global Otavio Muller é a velha nostalgia do que foi os anos 80 e o que hoje representa esta mesma geração, a perdição dos ideais e a venda para o mundo do show bunisses de 2 jovens que sonhavam em ser atores e tentam chegar a fama.
Rock and roll, sexo e muita maconha é o cenário que estes dois amigos viviam no ápice dos anos 80 e, na viagem de estrelarem uma peça de própria autoria mas que ,após um acidente de carro sofrido pela personagem de Serrado que o deixa cego, acaba por separar a sociedade cultural desses dois amigos: Serrado torna-se um musico pop enquanto Muller continua a ser o velho anarquista idealizando as músicas do Legião Urbana como um símbolo do modo de vida.
O reencontro dos amigos após 15 anos retrata realmente estes 15 anos; passagens longas com diálogos a lá Big Brother e com pausas extensas, acredito que o silêncio diz muito, mas muito dele é de fato puro silêncio e ,há também as previsíveis piadas da questão da cegueira de Serrado, como a velha: “olha aqui!” / “to vendo!”.
O inicio e o final da apresentação são uma falsa improvisação entre os atores, de fato engraçada com piadas com nível maior de intelecto.
Mas durante este reencontro, monólogos em tempos distintos entre as reais aflições das personagens faziam jus a emoção e humanidade do teatro, da angústia que aquelas pessoas sentiam por dentro, dos sonhos que não saem do papel ou dos que se concretizam mas no final de tudo acabam por não representar nada.
Tento entender porque peças com elenco apenas masculino é repleta do começo ao fim com palavrões e o clichê da masturbação; será sempre omeio para provar virilidade masculina ?
Situações verdadeiras mas que, utilizadas exacerbadamente apenas mostram o tabu ser forçadamente aceito pelo público que hipocritamente mostram asco no assunto.
Sexta-feira,20 de junho de 2007, chego mais uma vez a conclusão de que peças com atores famosos e, principalmente globais, devem permanecer atrás do visor da televisão, acreditem e aceitem de vez, teatro não é para todos.
Entendeu ou quer que eu desenhe , caralho!

Teatro , a arte do sonhar.





Teatro – Théatron (grego) lugar onde se vai para ver.O teatro teve seu inicio na Grécia antiga – IV A. C, - em homenagem ao Deus do vinho Dionísio. Procissões eram feitas para celebrar as safras de uva,as quais juntavam mais de 20 mil pessoas que dançam,cantavam e encenavam as aventuras de Dionísio. Por ser um Deus campestre, nestas festas, os homens se vestiam de bodes.Mas foi com Aristóteles que surgiram os grandes fundamentos do teatro, através da Poética, com a apresentação da tragicomédia e diferenciando o inicio do teatro em 3 teses: a primeira ,já citada, é a festa do Dionísio que,os participantes se embriagavam de vinho porque, dessa maneira, entravam em contato com o Deus Bacante.A segunda tese baseava-se no na historia Os Mistérios Eulesis, a qual era uma encenação anual do ciclo da vida – nascimento à morte.E a última que de fato Aristóteles acreditava; era a dramatizaçãopública da saga do herói dório (umas das etnias do povo grego) Adrausto.
Este é um resumo do começo do teatro. Poucos sabem como ele surgiu e da sua forte ligação com a Filosofia.
Esta magnífica forma de cultura humana vem atravessando milênios sem perder a sua grande essência, a capacidade do sonho, da libertação do seu eu e, pela troca do seu personagem por um novo, talvez aquele que até exista dentro de você, mas que tem medo de soltar ou de um outro que não há qualquer indício de semelhanças à sua pessoa.
São para poucos a encarnação de um personagem. Alguns dizem que deve –se deixar de lado quem és e se transformar no personagem, outros dizem que o correto é uma mistura; uma adaptação de suas qualidades e/ ou defeitos à nova que vem a chegar.
Creio não ter o mais correto, porque o que importa é o amor. Tem atores e atores, uns tentam, desesperadamente, mas não tem a essência, só paixão, a vontade de ser, mas param nesta vontade. Agora tem Os Atores que são o próprio teatro, que amam tudo que está a sua volta,que caminham pelo espaço, lentamente, sentindo seus pés tocarem o chão, a respiração muda, a transformação do corpo é completa, o físico e a mente viajam lado a lado.
Hoje faço parte desta nova vida. Espectadora por anos e atuante por alguns meses, mas que mudaram meu modo de viver através do auto- conhecimento que o teatro proporciona.
Por isso, liberte-se!
Que Dionísio continue a nos abençoar!
E, que sejamos sempre os protagonistas de nossa vida!
Gritemos!

M E R D A