Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

Cabaret

Jarbas Homem de Mello (Mestre de Cerimônia) e Claudia Raia (Sally Bowles)


Luxo. Entretenimento. Magia. Sedução. Amor.  Prepare-se para deparar-se com tudo isso e muito mais no espetáculo Cabaret, sucesso pelo mundo todo há mais de 45 anos e, tornou-se ainda mais conhecido após ser interpretado por Liza Minelli nas telas do cinema.


Adaptado pelo ator e diretor Miguel Falabella, o musical é estrelado pela bailarina e atriz Claudia Raia.
Ao entrar, o público já é acolhido por um ambiente envolvente dos anos 30. Além das poltronas, mesinhas ficam localizadas nas laterais, permitindo que o próprio público faça parte da apresentação.


Chegando  de trem a Berlim, o jovem norte-americano Cliff Bradshaw (Guilherme Mago) se depara com um estranho o coloca em uma situação muito agradável. Mas, para compensar, esse o arranja um quarto para ficar além de convidá-lo ir ai Kit Kat Club, um cabaret muito popular.


Não apenas Cliff, mas nós somos recebidos pelo Mestre de Cerimônia, interpretado belamente pelo ator Jarbas Homem de Mello. Ele é o responsável por nos conduzir por essa história.Logo a principio, já sentimos como é um cabaret. Além do MC, o local conta com outros dançarinos. 


Muito colorido, muita alegria e talento fazem com que a plateia fique contaminada pelas letras e coreografias, que podem ser vistas como imorais para aqueles que tem uma mente mais fechado e puritana; a sensualidade está por toda a parte.


Bradshaw vai até o club. Lá, conhece a irreverente Sally Bowles (Claudia Raia). Grande estrela do show, ela acaba se interessando pelo rapaz e, mesmo sabendo de sua homosexualidade, ela o seduz até que acabam se apaixonando. Eles vivem um amor cheio de exageros, bebidas e festas. Mas é, na verdade, um outro casal chama atenção pelo seu romantismo. Fäulein Schneider (Liane Maya), e o judeu, Herr Schultz (Marcos Tumura). Apesar de terem uma linda história de amor, logo eles se deparam com um grande obstaculo; o nazismo entra e cena, e já começa a mostrar suas garras, impedindo que o casamento deles se realize uma vez que Fäulein tem medo de perder o dinheiro que recebe do governo.


Ao perceber as mudanças que irão acontecer em Berlim, Bradshaw decide voltar para a América e levar sua amada, que possivelmente carrega seu filho. Sem aceitar a ideia de abandonar suas raízes, Sally tira a criança para que Cliff possa ir embora.


Ela não pode viver sem o sucesso, sem o glamour ilusório que a vida lhe oferece. Os figurinos usados pela atriz retratam muito bem isso. Praticamente a cada entrada ela usa algo diferente e extremamente elegante.


Existe muita interação com o público,o que nos leva mais ainda para o ambiente que a peça propõe. É interessante ver como as pessoas reagem a isso, com aquele medo de ser levado ao palco e passar por alguma situação constrangedora. Mas muito pelo contrário; os atores, mesmo em seus personagens extravagantes, são discretos  e até mesmo delicados.


Em 2h30 de espetáculo, Cabaret consegue mexer com todos os sentimentos. Momentos de alegria, tristeza, amor, emoção e até o questionamento político quando Hitler inicia sua campanha política - a maneira como isso afetou todas as pessoas que moravam na Alemanhã e, que toda a vida que existia até então, foi sugada pelo tirania do nazismo.


Fiquei encantada e maravilhada. Na verdade me surpreendi, não apenas com a interpretação de Claudia Raia,  que até então ainda não a tinha visto em cena, mas como os musicais aqui no Brasil tem sim capacidade de conquistar público. Claro que, a presença de nomes globais ajuda muito, mas o que realmente importa é que os envolvidos estejam bem preparados e à altura. 


O elenco também conta com Julio Mancini, Katia Barros,Alberto Goya, Alessandra Dimitriou, Carol Costa, Daniel Monteiro, Fabiane Bang, Hellen de Castro, Keka Santos, Leo Wagner, Luana Zenun, Luciana Milano, Marcelo Vasquez, Mateus Ribeiro, Rodrigo Negrini e Tomas Quaresma.


O que eu acho que ainda precisa ser reavaliado são os valores dos ingressos. Eu acredito que ainda sim pode ser possível levar todo e qualquer espetáculo para todos que tem fome de cultura. É preciso estudar a possibilidade de se criar temporadas com preços populares.


Nós, artistas, temos a responsabilidade de levar nossa arte para quem desejar tê-la.


Para quem se interessou, Cabaret está em cartaz no Teatro Procópio Ferreira até fevereiro de 2012, às quintas (21h), sextas (21h30), sábados ( 18h e 21h30) e aos domingos (18h). Os ingressos variam de R$ 40 a R$ 200.

Domingo, Novembro 27, 2011

O Cinema e Eu

Foto: Divulgação
De cinco anos para cá, o cinema nacional vem conquistando seu espaço no mercado, além, claro, dos aplausos do público mais exigente: os brasileiros. O longa Tropa de Elite, por exemplo, é um dos destaques da nova safra de grandes títulos. Dirigido por José Padilha, o filme arrebatou o público pela crítica social latente e por conta do protagonista Capitão Nascimento – vivido pelo ator baiano Wagner Moura. O jeito estourado do personagem, ao lidar com o crime e com as questões pessoais, cativou os espectadores de forma definitiva. Para qualquer ator, é sempre um desafio chegar até sua personagem. Como fazê-lo de uma maneira crível para que este chegue até os espectadores e os façam entender a vida daqueles que eles veem nas telas?

Além de jornalista, sou atriz e já fiz alguns cursos de interpretação. Grande parte deles são voltados para o método do russo Constantin Stanislavisk, que propõe uma atuação realista, na qual o ator deve estudar e buscar sua personagem dentre algumas “regrinhas” que esse sistema impõe, como ação exterior e interior – tudo aquilo que fazemos tem que ter um propósito – círculo de atenção e gênese da figura dramática. Há sempre, de alguma maneira, uma barreira que limita o ator e a do papel a ser interpretado.

Contudo, um novo método vem tomando conta do cinema nacional. Desenvolvido por Fátima Toledo, muitos diretores buscam o trabalho dessa alagoana na hora de preparar os atores que farão parte do elenco. Descoberta por Hector Babenco, Fátima pôde trabalhar com os jovens atores do filme Pixote, a Lei do Mais Fraco. Foi a partir daí que seu nome repercutiu e conquistou muitos diretores. Seu trabalho pode ser visto não apenas nas duas edições de Tropa de Elite, mas também em Cidade de Deus, Central do Brasil, Linha de Passe e Besouro.

Mas o que difere Fátima no mercado? Curiosa do jeito que sou, fui até seu studio na Vila Mariana, em São Paulo, para fazer um de seus cursos. Quem é ator, aposto que já deve ter ouvido algumas histórias estranhas sobre as aulas, como sair machucado e que o ator é exposto a situações-limite. Inclusive muitos têm medo. A própria atriz Alice Braga, que fez parte do elenco de Cidade Baixa, admitiu que chegou para a preparação receosa. Preciso confessar que eu tinha um certo medo, mas meu interesse em descobrir e vivenciar coisas novas era muito maior. O primeiro curso que fiz foi um workshop de apenas cinco dias. Quis primeiro sentir o gosto da coisa antes de investir em algo que não me agradasse.

Na primeira parte da aula, o preparador busca a limpeza do corpo do ator, com exercícios da bioenergética que ativam um estado de vibração exterior e interior. O corpo deve vibrar, literalmente, fazendo que ele fique vivo e pronto para o que for necessário. Em diferentes posições, vamos buscando esse ápice. Mas o mais importante, aqui, é você estabelecer uma conexão com seu parceiro. Todos os exercícios são feitos em dupla, e nunca pode haver uma quebra entre os olhares. Depois de suar a camisa, vamos para a meditação da kundalini que, por meio da movimentação do quadril, ativa-se uma energia adormecida em nosso corpo que está localizada no períneo, sendo percorrida por todo nosso corpo.

Na segunda parte da aula, vamos para as dinâmicas, ou seja, o preparador trabalha com alguns pontos cruciais do ser humano por meio de situações colocadas, como perda, solidão, busca de sonhos e conquistas – na qual os atores devem vivenciá-las sem construir histórias ou personagens; é o que a pessoa precisa e vive naquele momento.

Ai está o diferencial. Fátima busca a verdade e a sinceridade de nossos sentimentos. Sem histórias e sem personagens. Ela pede você ali, naquela situação, naquele momento, naquele dia. Tem que ter muito peito pra encarar seus medos e ser condizente com aquilo que você realmente é. A conexão que fazemos com nosso corpo e nossas sensações é imprescindível nessa busca.


Foi assim que o Capitão Nascimento nasceu. Ao ser pressionado por um comandante do Bope, quando teve que ouvir coisas não muito agradáveis sobre sua família, Wagner explodiu de uma tal maneira que foi naquele momento que a personagem veio à tona.

Mesmo não estando na preparação para um filme, eu tive a oportunidade de me conhecer de um outro ângulo. Dos dois cursos que fiz no studio, vi a Marilia em um momento extremamente frágil que só chorava mas, em um segundo momento, uma outra pessoa forte que busca conquistar seu espaço. Você é constantemente acionado a vivenciar tudo o que guarda dentro de si próprio.

Se você já pensou em fazer curso na metodologia criada pela Fátima, vá. Não é preciso ser ator. O primordial é você estar disposto a embarcar em uma jornada de encontro e experimentação de um você que ainda não conhece – ou, pior, que tem pavor de ser apresentado. O studio oferece cursos mensalmente. Quebre seus tabus e você não irá se arrepender.

Matéria realizada por mim para o Site Guia da Semana! http://www.guiadasemana.com.br/Sao_Paulo/Cinema/Noticia/O_Eu_e_o_cinema.aspx?id=77228

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

O Beijo no Asfalto

Foto: Divulgação



Qual a repercussão que um beijo pode dar? Sempre que damos ou recebemos um, alguma coisa muda, claro se esse ato foi feito com ternura, amor, compaixão ou qualquer outro sentimento que o justifique.

E quando esse beijo é dado por uma pessoa que está a beira da morte? Em seus últimos suspiros de vida, um estranho pede um beijo...você o faria, mesmo que essa pessoa fosse do mesmo sexo que você?

No espetáculo O Beijo no Asfalto, obra de Nelson Rodrigues,  que está em cartaz no Teatro de Arena, narra a história de Arandir, um jovem que ao passar pela praça da Bandeira para penhorar jóias na Caixa Econômica Federal para conseguir pagar um aborto para sua mulher, Selminha, corre em direção a um homem que foi atropelado para tentar socorrê-lo. Como seu último desejo, esse desconhecido pede um beijo na boca. Comovido pela situação, Arandir o faz. Mas, no local, um repórter que trabalha para um jornal sensacionalista, presencia a cena e decide publicar e explorar o acontecido como a notícia do ano.

Para isso, o jornalista conta com a ajuda de um delegado corrupto. Os dois irão forjar testemunhas, chantagear pessoas envolvidas e até mesmo se aproveitar do momento de dor da viúva do atropelado; tudo isso com o intuito de transformar o beijo entre esses homens num caso amoroso para que a repercussão seja ainda maior.

O beijo acaba por destruir com a vida de Arandir que passa a ser visto por todos como um homossexual enrustido, exceto por sua cunhada, que nutre uma paixão secreta por ele. Mesmo sua mulher, que o ama perdidamente, acaba por acreditar nas histórias inventadas pelo policial e repórter, além do incentivo de seu pai, Aprígio, que na verdade é apaixonado pelo genro.

A obra de Nelson discute a fragilidade do ser humano perante a morte,  se realmente são válidos cumprir os desejos de uma pessoa que irá partir dessa para a melhor e de como enfrentar a grande incerteza da nossa existência. Além disso, critica acidamente a imprensa. Hoje em dia, basta ligarmos nossos televisores que encontramos telejornais que noticiam tragédia atrás de tragédia; eles usam a violência e a desgraça alheia para vender notícia. Mas até onde também esses jornalistas estão errados? Não somos nós, o público, que damos audiência para isso? De maneira nenhuma os defendo, mesmo fazendo parte da classe.  Acho inadmissível construir uma carreira baseada em tristeza.


Durante a apresentação, os atores constantemente utilizam a palavra "Escuta" como uma maneira de impor a sua verdade e de se fazer presente ali, com aquilo que é seu alicerce dentro da história. Muitos outros símbolos podem ser encontrados, referência até mesmo religiosas e de purificação. O palco, que fica coberto de jornal o tempo todo, abriga as personagens que ficam sentadas assistindo a cena. Acho interessante perceber os seus rostos assistindo a encenação...se ficam imparciais, se participam ou se estão em outro mundo.

O espetáculo faz parte do projeto Quem ainda tem medo de Nelson Rodrigues? que homenageia o centenário do nascimento do dramaturgo. Coordenado por Marco Antônio Braz e desenvolvido pela Cia. do Teatro Promíscuo, de Renato Borghi e Elcio Nogueira (que é preciso ressaltar as excelentes interpretações na peça em questão), e o Círculo dos Canastrões, o público irá conferir  as peças  "Os Sete Gatinhos", "Valsa N.6"  além de  "As Noivas de Nelson", com dramaturgia de Braz. 

O elenco, que executa uma performance admirável, sem exageros e com muita sutileza, conta também com Rodrigo Fregnan, Livia Ziotti, Gabriela Fontana, Hudson Senna, Willians Mezzacapa, Michel Waisman, Carol Carreiro, Rafael Boese, Adriana Guerra e Amanda Pereira.

A peça faz temporada até 19 de fevereiro. Às sextas e sábados, às 21h, e domingo, às 19h. A partir de dezembro, apenas aos domingos, 19h.

Sábado, Outubro 22, 2011

Adultérios

Foto: Site Oficial
Até que ponto não ter uma noção realista da realidade é não ter os pés no chão ou até mesmo de ter o velho bom senso apurado, mesmo que distorcido quando comparado as normas aceitáveis da sociedade em que se vive.

Ficou confuso? Ótimo! Entendeu o que eu quis dizer? Excelente! Muitas coisas na vida que parecem não ter sentido pra maioria, na verdade é tão verdade quanto nosso retorno ao mundo de Hades.

Ambientado na cidade de Nova Iorque, o espetáculo Adúlterios, obra do excêntrico diretor Woody Allen, ocupa o palco do Teatro Frei Caneca. Com tradução de Raquel Ripani, adaptação e direção de Alexandre Reinecke, o espetáculo traz em seu elenco o ator Fábio Assunção, o qual tenta recuperar o tempo afastado da mídia, Norival Rizzo, um dos mestres do teatro brasileiro, e as  aparições de Carol Mariottini, ao meu ver totalmente desnecessárias  – não porque sua personagem aparece pouquíssimas vezes, mas bom, é como se diz nesse meio,  não existem papeis pequenos, e sim atores que não são capaz de engrandece-los, e torná-los críveis e relevantes pra história.

À beira do Rio Hudson, Jim Swain aguarda a chegada de sua amante decido a acabar com seu caso extraconjugal. Deitado embaixo de um banco, o impetuoso Fred, um esquizofrênico que recebe “dicas” de ondas sonoras vindas diretamente do Empire State, inicia uma conversa que no primeiro momento parece ser fútil e sem propósito, até o momento em que acusa seu mais novo “parceiro” de roubar sua história e transformá-la em um sucesso de bilheteria. Decido a ter sua parte na bolada, Fred aos poucos vai se aproximando de Jim, fazendo com que este confesse seus problemas pessoais. Uma ligação psíquica nasce entre os dois, chegando a um determinado ponto onde a loucura passa a fazer parte da vida desses dois homens.

A comédia é muito bem escrita. Diálogos inteligentes e personagens muito bem construídas pelo sue criador. Quando se tem um texto de tamanha qualidade, fica difícil, ou não, um ator por tudo a perder. Em Adúlterios, felizmente, o resultado é, em modo geral, extremamente positivo graças a excelente atuação de Norival Rizzo. Com uma interpretação sutil, mesmo que ás vezes tomada por elementos melodramáticos, o ator leva com maestria o público as gargalhadas. Pausas, ritmo, fala, interiorização e exteriorização em total harmonia.

O galã global dá conta do recado. Não por conta de sua excelente atuação, mas porque ele tem o essencial para viver um personagem tão incrivelmente elaborado; para estraga-lo, só mesmo um ator de quinta, mas nada de citar nomes. Fábio, abusa dos movimentos com seu ombro e cabeça; chacoalha-os rapidamente e a todo momento. Aí tu pode dizer, “é a personagem!” Sim, concordo plenamente, ainda que os esquizofrênicos são energéticos e vivem de seus delírios mas, não é a primeira vez que vejo o ator a fazer esses mesmos gestos, em intensidade reduzida, claro – caso queira conferir, assista sua participação na série Tapas e Beijos, da Rede Globo.  Além disso, a melodia, o ritmo e nuances usadas são um tanto cansativas, uma vez que congela do começo ao fim.

Aos que se interessaram, a peça segue em cartaz até 27 de novembro às sextas, 21h30 ($ 50), sábados, 21h (R$ 70) e aos domingos, 19h (R$ 60).